LENDA URBANA 2
A VELHA DO SACO
Maria do Lenço, também conhecida como a Velha do Saco, era temida pelas ruas estreitas e mal acabadas de um pequeno arraial, lá pras bandas do norte, onde o vento faz a curva. As histórias contadas nas casas feitas de taipa de mão, a beira do fogão de lenha, com uma fumaça persistente para cobrir meio mundo, davam o tom que o mistério carecia. Não havia ninguém por perto que não se achegava para ouvir a prosa quando o assunto era a Velha do Saco. Logo depois de forrar o bucho, molhar o bico com pingado de café, ascender o velho cachimbo, sem Timbó, fazia as honras da casa e tacava os contos que ouvia quando criança sobre o mistério. Afinal: o que a tal velha levava no saco. Para povoar o pesadelo dos curiosos, o contador não se fazia de rogado e caprichava nos detalhes sem amarras de qualquer espécie. Seu Timbó deu a boa impostação na voz e vieram os primeiros dizeres. Contava ele, que a Velha do Saco tinha hora, local e forma correta de agir. Para contar como ela era foi rápido e não economizou nos detalhes. A Velha, tinha um andar lento, mancava de uma perna, queimava o pito até o canto da boca, tinha uma verruga saliente na ponta do nariz, espalhava balas pelo caminho e passava pelas ruas em busca de encher o saco. Para os curiosos no assunto, ali bem perto, nem piscavam com medo de saber a resposta da tão temida pergunta: o que ela levava no saco?. O ambiente, tomado por uma penumbra causada pela fumaça que saia da boca do fogão e do cachimbo de seu Timbó, ajudava na imaginação. A indagação pipocou de todos os lados. Teve quem achasse que a Velha do Saco estava atrás dos pequenos desordeiros e, uma vez capturado, quem sabe o pé-frio, ou azarado, não tinha como destino perverso, sair do saco da dita cuja para virar sabão. Seja como for, a resposta ninguém sabe. Seu Timbó, com seus 86 anos, se perdeu nos pensamentos lentos como o andar da velha, bocejou e foi dormir. Como se quisesse encerrar o assunto disse apenas que tudo era um conto. E ponto.
LENDA URBANA 2