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domingo, 01 de novembro de 2026
LENDA URBANA 1
COLUNISTA

LENDA URBANA 1

A CASA QUE ATIRAVA PEDRAS Hiltonei Fernando (jornalista) Sempre quando o dia começava com o céu ranheta, escuro e com cara de chuva, poucos ousavam passar pela rua estreita, com mato em volta e pedras pelo caminho. Seguir por aquela estradinha significava reviver os piores medos que se podia imaginar. Aqueles guardados lá no cantinho da nossa imaginação sombria. A lenda lá pros lados do racho Quatro Irmãos movimentava a mente geração após geração. As pessoas do vilarejo, diziam a boca miúda, que sempre na volta do dia, era possível ouvir barulhos estranhos vindos de uma casa que ficava no pé da serra. Certo dia, vestido de uma coragem marota, o pequeno Lilito, como era conhecido na redondeza, de tanto escutar as prosas, não se fez de rogado. Passou a mão no trapinho a sua frente, vestiu e seguiu rumo ao desconhecido. Ele até que tentou, mas não conseguia segurar a batida dos joelhos. De tão magro e com frio na espinha, era o som do pavor. Acompanhado do mascote fiel, um cão perdigueiro, o menino Lilito seguiu caminho a fora. Mesmo tão pequeno, conhecia as trilhas como poucos ali. Afinal, as andanças nos seus 14 anos já davam o que falar. E quando deu os primeiros passos, o jovem desbravador começou a se lembrar das repetidas histórias da casa que atirava pedras. Em uma imaginação fértil, era possível até escutar o zunido perto do ouvido. Entre uma moita e outra, entre um rosnar e outro de onça brava, o fascínio pelo desconhecido empurrava o pequeno. E, finalmente, depois de algumas horas eis que lá estava ele diante da lenda. Ao notar o casebre de perto logo se percebe que foi feito as pressas, com pouco esmero e sem acabamento digno de saltar os olhos. Aquela visão de lugar abandonado, diziam os mais velhos, era de propósito. Ninguém podia chegar perto. E dava medo só de olhar. Depois de um breve descanso e um gole de água para molhar a garganta, decidiu arriscar mais alguns passos em direção a tal casa. Bastou para que a primeira pedra viesse em sua direção e acertasse a canela seca do pequeno mancebo. Na sequência, uma após outra, logo uma chuva de pedras cobriu Lilito. E aí veio a dúvida cruel: correr ou enfrentar a casa que atira pedras. A segunda opção, mais assustadora, foi a primeira que veio a mente. O jovem então se escondeu atrás de um tronco velho e passou a observar. Logo, o ataque de pedras cessou e vieram sussurros travessos de dentro da tal casa. Lilito, segurando os cambitos, tomou a última coragem que lhe restava, e foi em direção ao medo. Quando entrou, ficou paralisado. A tal assombração, na verdade, eram três garotos de lá mesmo do povoado. Tomados pelo fascínio da história decidiram transformar lenda em realidade sombria e com uma pitada de mau gosto. Como já estava por lá mesmo, o nosso jovem desbravador decidiu se juntar aos mal feitores. Se antes eram três, agora são quatro, os atiradores de pedras. E essa história foi contada ainda por muitos tanto tempo depois.